TROTE – VOCÊ JÁ FOI VÍTIMA?

Para muitos estudantes entrar na faculdade é um dos momentos mais esperados da vida, além da realização de um sonho. Já para outros, sair do ensino médio e, de cara, começar uma faculdade pode se tornar um pesadelo, pois  junto vem o receio do famoso e temido TROTE!

Conhecido por sua violência, gratuita, e pelo mau gosto nas escolhas das “brincadeiras” o trote a cada ano ganha mais destaque, no entanto as universidades lutam para que essa imagem, de violência, seja separada do trote e por isso criaram o trote solidário, que até pode estar dando certo, porém não fez com que o antigo acabasse.

No Trote Solidário, os calouros ao invés de terem seus cabelos raspados, serem pintados, ou na pior hipótese, sofrerem agressões físicas, são convidados a realizar campanhas beneficentes, uma forma dos alunos novatos participarem de ações de cunho social, como doação de sangue, alimentos, roupas, material escolar e prestação de serviços voluntários. O Trote Solidário imprime um caráter social à recepção dos novos alunos e tem como objetivo promover a integração, desses mesmo alunos, à vida acadêmica e vivenciar o compromisso com a responsabilidade social e o trabalho em equipe.

Porém, até mesmo os trotes solidários podem se tornar violentos… Eu explico. Eles podem, até, ser um avanço no trote tradicional, mas esse termo é um tanto que contraditório. Pois, caso o calouro não queira colaborar “voluntariamente”, ele é visto como uma pessoa chata, que não participa das atividades. Ou seja, mesmo sendo uma ação solidária, você continua sendo “domesticado” a fazê-la. Esse tipo de trote pode ser até um avanço, mas não uma solução definitiva!

Onde surgiu o Trote?

No livro “Trote na Universidade” do psicólogo e mestre em educação Antônio Álvaro Soares Zuin, descreve o trote atual como mais um ritual sadomasoquista de integração, explicitando para os educadores as contradições de nossa contingência humana e os laços arquetípicos que nos mantém encalacrados na barbárie, incapazes que somos de rompê-los e nos libertarmos desses grilhões que continuam dificultando a construção do humano, uma herança comum, algo que começou há milhares de anos atrás e se perpetua até hoje.

“Na esfera da educação, verifica-se, historicamente, de dar e receber cotoveladas, que necessitada debilitação do ego não só nas classes escolares, mas também no rito de passagem (o chamado trote) dos calouros universitários durante o processo de integração com os veteranos”. (p. 26)

“A presença do ritual é, portanto, a repetição de um comportamento estereotipado”. (p. 27)

Neste trecho podemos perceber que esse tipo de ação dos velhos alunos em relação a seus novos colegas, pode ser considerado reflexo daquilo que eles também receberam, portanto estão apenas continuando com o ritual que aprenderam.

“No que se refere o trote como ritual que marca a passagem para a integração na vida universitária e, por que não dizer, como um dos rituais que simboliza a transição para a vida adulta na nossa sociedade” (p. 28)

“Essa tradição que se perpetua no transcorrer dos séculos, parece ter sido iniciada no século XI, durante a Idade Média”. (PP. 28-29)

A presença desse ritual, nas universidades como forma de violência e barbárie teve início na Idade Média e continua até os dias de hoje, como se o homem não tivesse “evoluído”, pessoas já perderam suas vidas, seus sonhos, devido esta prática. E isso segundo o autor, pode ser simbolizado como se a pessoa entrasse na vida adulta, ou seja, você precisa aprender que deve se dobrar e aceitar tudo o que o mestre fala e quer. Esse é o grande problema!

As histórias – Primeiro trote registrado no Brasil terminou em morte

No ano de 1831, durante a recepção aos novos alunos da Faculdade de Direito de Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o calouro Francisco Cunha se revoltou com as brincadeiras humilhantes feitas pelos veteranos e na tentativa de deixar o local, Francisco foi interceptado a facadas por um dos estudantes mais velhos e morreu. Esse acontecimento marcou o primeiro trote que se tem registro no Brasil.

Só que muito antes do assassinato de Francisco, estudantes do mundo todo sofriam com as recepções violentas das universidades. O primeiro trote registrado aconteceu em 1342, na Universidade de Paris, e há relatos também na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, em 1941.

Ainda em seu livro, Zuin usa alguns exemplos de universidades que praticavam o trote, como essa de Heidelberg, onde os novatos eram obrigados a beber urina misturada com vinho e até mesmo comer alimentos com fezes dos veteranos, além de outras loucuras como se masturbar na frente de todos. De acordo com o escritor, os veteranos faziam coisas pavorosas com os calouros, que eram chamados de “bixos”. Como se não bastasse também, eram obrigados a assinar um termo de compromisso de que iriam realizar as mesmas ações no ano seguinte. Um verdadeiro absurdo!

O trote universitário, que antes devia ser um ritual de passagem e socialização para que os jovens calouros se tornem amigo dos veteranos, hoje é uma passagem marcada pela violência física e moral baseado na agressão e na humilhação daqueles que estão iniciando o curso superior.

Outro caso que chama a atenção e exemplifica bem o que digo, foi o que ocorreu com um estudante que passou em medicina em São Paulo e perdeu a vida vítima de um trote violento. Isso nos faz pensar que na sociedade em que vivemos que não existe diferença entre a rua e a universidade, pois em ambas se encontra o perigo e o risco de perder a vida.

ZUIN também faz uma reflexão em sua obra, onde vivemos em uma sociedade do espetáculo que não está preocupado com o próximo, mas somente uma sociedade cheia de ressentimento que espera um determinado momento para se vingar do outro. Como é feito nos trotes das universidades que é uma forma de descontar todo o constrangimento que os veteranos passaram quando eram calouros, se eles sofrerem os próximos também tem que sofrer, na maioria das vezes é assim.

A sociedade continua na barbárie, pois existe uma grande indiferença um com o outro. E a integração pela opressão, e por essa indiferença, sempre deve ser combatida. Estamos, ou vamos estar, todos em uma universidade, local idealizado para pensar e refletir sobre o futuro do ser humano. A prática do trote na universidade, como vem ocorrendo, é, no mínimo, contraditória a esse ideal.

E mudar? O mudar depende de cada um – de mim e de você!

Wanessa Marçal – Estudante de Jornalismo e Colaboradora do Nuven Digital*

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