PERSONALIDADES HISTÓRICAS OU ESTEREOTIPADAS, COMO DISTINGUIR?

D. Pedro I

A história do Brasil evocada através da narrativa de um professor de história pode parecer algo monótono para quem esteja acostumaado com o encanto produzido pelo audiovisual. A novidade dos audiovisuais é a ilusão, o que surge na tela é como se fosse algo verdadeiro, embora saibamos que se trata de uma mentira no decorrer do filme dá para fazer de conta que é de verdade.

Quando assistimos a um filme de conteúdo histórico nos é passada a impressão de realidade, a qual prende nossa atenção e nos envolve com o contexto, no cinema, fantasia ou não, a realidade se impõe com toda a força.

O que vem incomodando a muitos historiadores, é a propagação realizada pelos meios de comunicação (cinema, tv e teatro) de uma imagem caricaturada dos personagens históricos: Carlota Joaquina é caracterizada como uma mulher ninfomaníaca, ambiciosa e inescrupulosa; Dom João VI é um soberano covarde, preguiçoso, despreparado e glutão; Dom Pedro I é representado como um mulherengo conquistador, sem esquecer o seu papel de herói nacional e artífice da Independência.

Todas essas imagens reiteradas por produções audiovisuais, como a minissérie global “O Quinto dos Infernos” e o filme “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, são responsáveis pela difusão e aceitação coletiva desses estereótipos pelos brasileiros.

Carlota Joaquina, apesar de  seus casos extraconjugais, foi uma articuladora política importante, principalmente na sua participação em conflitos espanhóis, participação essa que causou problemas para a diplomacia portuguesa e resultou no cerco político que D. João e seus ministros fizeram a sua atuação.

Ela possuía uma postura à frente do seu tempo, agindo fora dos padrões da sua época, em que uma mulher pertencente à realeza lusitana jamais tomaria atitudes desvinculadas aos interesses portugueses e do seu marido D. João, e talvez por isso ela seja o principal alvo dos preconceitos.


D. João covarde e despreparado “pintado” por Camurati, afirmam autores, que também não corresponde ao real. O soberano português seria um exímio estrategista político que ao sofrer pressões inglesas e francesas agiu dentro das limitadas manobras que lhe apresentavam um período de guerra; que entre o embate das idéias liberais e absolutistas, conseguiu legitimar o seu poder atuando de maneira ambígua (ao mesmo tempo em que defendia o absolutismo era um reformador); que reagiu de forma violenta contra a insurreição ocorrida na Revolução Pernambucana em 1817.

 As narrativas de personagens históricos podem lhe ressaltar certas características e obscurecer outras. Teremos um bom exemplo disso se compararmos o D. Pedro I do filme “Independência ou Morte” vivido por Tarcisio Meira, e o D. Pedro I encenado por Marcos Pasquim na minissérie “O Quinto dos Infernos”, apesar de se tratar da mesma figura histórica ambos tem posturas divergentes. Tais representações são produtos de sua época: no contexto do D. Pedro I de Tarcisio Meira, o qual proclama a Independência em cima de seu cavalo, cheio de pompa e um bonito discurso, no estilo de narrativa positivista, objetivando evocar dos espectadores orgulho das suas origens históricas; já o D. Pedro I de Marcos Pasquim, fruto de outro contexto historiográfico menos convencional, proclama a Independência agachado, de calças arriadas em meio a uma forte dor de barriga.

 Aos historiadores cabe a preocupação no caso de o filme “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” ser a única versão conhecida por um espectador da vinda da família real para o Brasil. A partir disso, os professores de história não deveriam simplesmente condenar o filme ou isolá-lo, e sim utiliza-lo em sala de aula. Através de um diálogo com os alunos o educador explicitaria as falhas presentes na representação audiovisual, de forma que os preparasse para as imagens que iriam visualizar, desse modo, os estudantes não cristalizariam os estereótipos e voltariam sua atenção para outros aspectos importantes do audiovisual histórico.

Para as demais pessoas que não estão mais no papel de alunos o indicado é procurar pesquisar e conhecer um pouco mais da história, principalmente da história do seu país. Em geral não devemos assimilar a primeira imagem que nos é apresentada (seja o tema histórico ou não), devemos ser críticos, pesquisar e conhecer melhor os assuntos para tirarmos nossas próprias conclusões embasadas.

Texto de Khrystiano Cavalcante com Edição de Fábio Santos e Cícero Sena

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