RACISTA: POR FALTA DE CONHECIMENTO?
Escrever um artigo sobre a situação dos negros e pardos no Brasil no dia da consciência negra, não é tão fácil o quanto parece à primeira vista – Afinal, são tantas questões a serem abordadas que mesmo um livro seria insuficiente para tratar de todas elas.
Exploração, sofrimento e ignorância, qual destes três conceitos é o pior para se lidar no dia-a-dia? Sem hesitar, podemos dizer que o terceiro: pois, sendo vítima dele nada se pode aprender. Nada menos do que 500 anos de trabalho esforço e exploração e miscigenação, marcam a evolução da cultura negra no Brasil. No entanto é a falta de reconhecimento tanto da contribuição quanto do papel do negro na formação da cultura nacional, que geralmente se expressa por meio do preconceito, que acaba por gerar danos irreparáveis à existência de cada um dos brasileiros.
Em seu livro publicado em 1928, Napoleon Hill, um escritor, branco, norte americano, interessado no campo da realização pessoal publicou um livro intitulado a lei do triunfo. Livro este, que se tornou um bestseller. Neste livro, Napoleon citou alguns dos fatores que atrasam a humanidade em seu desenvolvimento, deixando claro que para ele o preconceito era um dos maiores problemas da humanidade, pois este, é quase sempre, baseado em opiniões, intolerância, achismos, boatos, ignorância e o próprio preconceito: então, para ele, essa seria a formula pela qual milhões de pessoas se condenam diariamente a derrota e fracassos infinitos.
Em uma definição simples da ideia de Napoleon, podemos dizer que as pessoas preconceituosas estão apenas perdendo a oportunidade de encontrar pessoas-chave, que poderiam fazer toda a diferença tanto em suas vidas quanto em seus negócios. Pessoas que prejudicam outras, antes mesmo de conhecê-las, por causa do preconceito, estão perdendo a oportunidade que poderia inspirá-los em seus negócios em suas vidas pessoais e até profissionais.
Como alternativa ao preconceito resultante to pensamento indutivo, isto é, aquele que não era baseado em fatos, Napoleon sugeria o pensamento dedutivo, através do qual se separavam os fatos das ficções, ou irrealidades; como consequência disso se chegaria mais facilmente a soluções de problemas e projetos práticos para o dia-a-dia. No entanto, Napoelon não foi o único a perceber os efeitos do preconceito na sociedade, A ex-secretária de estado Estadunidense, Condoleezza Rice, parece ter achado o mesmo.
Um problema racial bem brasileiro
No seu comentário sobre o encontro Afro XXI em Salvador, publicado no jornal A tardedeste domingo dia 20, O jornalista Nilton Nascimento fez referência a tratamentos que ele considera rasos e que são dados as questões raciais brasileiras. Para isso ele citou a opinião da ex. secretária de Estado Americano Condoleezza Rice, que visitou o Brasil e a Bahia em 2008 e que diz em seu livro, No High honour: A memoir of may years Washington (Nenhuma Honra maior: Memórias de meus anos em Washington):
“Durante a visita eu me surpreendi com a divisão racial no Brasil. Os brasileiros sempre sustentaram que não têm problema racial. Pareceu-me que nos serviços braçais ficam os africanos (com a pele escura); nos serviços, os mulatos (birraciais); e os funcionários do governo têm ascendência europeia/portuguesa. O Brasil foi o país mais parecido com os Estados Unidos na sua composição étnica, mas parece ter tirado pouco proveito da revolução pelos direitos civis que mudou a face da política e da sociedade americanas.”
fica obvio no texto acima e em visita a um sem número de estabelecimentos comercias e empresariais brasileiros que a questão racial ainda não foi resolvida em nosso país. Embora compartilhemos muitos laços sanguíneos e culturais com os EUA, pouco aprendemos com a sua experiencia racial. No entanto nunca é tarde para se aprender mais sobre luta por direitos tanto no Brasil quanto em outros países.
Luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos
Enquanto boa parte do mundo ocidental criticava e clamava contra a politica nazista de exterminação em massa de judeus e outras minoria étnicas e religiosas. Nos Estados Unidos a segregação racial não só existia como se expandia. Negros eram brutalmente assassinados forçados a ceder seus assentos em ônibus e auditórios para pessoas brancas, obrigados a usar banheiros diferenciados para negros “coloured only”e até mesmo obrigados a usar entradas diferenciadas para hotéis, restaurantes e salões de eventos.
Em meio a tudo isso o um movimento buscava a garantia de direitos de igualdade civil, o civil rights movement (1955-1968). Martin Luther King Jr., líder religioso, negro, norte americano, se tornou mundialmente famoso por sua luta pela implementação da igualdade civil nos Estados Unidos. Um de seus maís famosos discursos foi intitulado eu tenho um sonho, I have a dream, proferido em 28 de agosto de 1963, nele Martin pregou a igualdade racial e o fim da discriminação. Martin foi assassinado em 1968 aos 39 anos e é lembrado até hoje por sua contribuição para a conquistas dos direitos igualdade civil nos EUA.
Conhecer para debater e propor soluções
Tanto negros quanto brancos precisam conhecer melhor a história do Brasil para resolver questões raciais. Ainda hoje, a longa história do negro no Brasil ainda é desconhecida pela maioria da população negra e branca do Brasil. Isso não por falta de vontade destes, mas também por falta de registros e do estudo e divulgação do que ainda existe documentado.
Na prática, a única história negra que se enfatiza é a contemporânea, na qual o negro geralmente ocupa uma posição preponderante nas páginas policiais, programas de TV sensacionalistas, nas artes, principalmente dança, e no esporte, futebol, como jogador, mas dificilmente como técnico, diretor, diretor de clube etc. Por isso, entender como essas paredes de vidro se formaram e se solidificaram durante os últimos 500 anos é o primeiro passos para se compreender como elas podem ser removidas.
Uma História ainda enterrada
O jornal O globo no último sábado 19 de novembro em uma reportagem engajadora de Ana Lúcia Azevedo exemplificou de forma sublime, o quão pouco, nós brasileiros, sabemos de nossa história negra.
Literalmente enterrado debaixo de dois bairros, Gamboa e Saúde, no centro antigo da cidade do Rio de Janeiro, encontra-se o cemitério dos Pretos Novos. Lá milhares de escravos vindos das mais diferentes partes do continente africano encontraram sua última morada, empilhados em covas coletivas ou mesmo consumidos pelo fogo, queimados. Estima-se que cerca de 30.000 negros foram enterrados lá durante o Brasil colônia e Império. Mas só agora, graças a técnicas ultramodernas, como exames de DNA e analises de isótopos de estrôncio, as informações importantes sobre a vida e a morte destes imigrantes africanos começam a ser desenterradas.
Quem eram eles? De onde vieram? Como viveram e como morreram ? são apenas algumas perguntas para as quais se buscam respostas. Mas que ainda vão demorar um pouco a ser resolvidas. Enquanto isso temos como principal fonte para criação da história negra a teledramaturgia, mas será essa a função da telenovela?
Separando ficção dos fatos
Novelas de época, seriados, especiais de fim da ano e reportagens especiais muitas vezes abordam questões importantes relativas a formação da identidade nacional. Desde a mamãe Dolores da novela Direito de nascer, até a mais recente protagonista de novela das oito, negra, tais Araújo a Helena de viver a vida, o negro tem sido apresentado e representado na telinha de varias formas.
No entanto as limitações impostas pela programação, publico alvo, orçamento, anunciantes e por ultimo a própria opinião dos telespectadores são fundamentais na hora de determinar os limites do conteúdo. Poucos hoje sabem que a primeira versão de roque santeiro tinha um padre negro, que não deu as caras na segunda, ou que personagens negros foram retirados ou “diminuídos” em varias telenovelas, devido a pressões diversas. Deste modo pode se esperar e até se estimular que programas televisivos abordem temas históricos. Mas como da mesma forma que não se pode mater uma pessoa adulta viva e saldável apenas a base de uma dieta de arroz, História não pode ser construída apenas a base de melodramas.
Para isso é importante que se criem espaços aonde a história exista como uma representação o mais próximo possível dos fatos e não ficção de que temos conhecimento. Museus, bibliotecas, escolas e universidades tanto podem quanto devem se juntar a esta iniciativa, pois eles são os detentores da maioria dos fatos registrados até hoje.
Para concluir, podemos dizer que a questão racial no Brasil é bem mais complexa do que se deseja que fosse. Novelas e teledramas ajudam mais não substituem o ato de se pensar e discutir um dos maiores e mais importantes capítulos da Historia do Brasil.
O livro intitulado em inglês No High honour: A memoir of may years Washington,(Nenhuma Honra maior: Memórias de meus anos em Washington) da ex-secretária de estado Americano Condoleezza Rice ainda não esta disponível em português.
Fabio Santos
Fábio é mestre em comunicação pela Universidade de Londres. Estudou direito, é apaixonado por Interatividade, empreendedorismo e tecnologia. Recentemente Fábio criou um curso, em 10 aulas, que ensina as pessoas a usar a internet para gerar renda de forma simples e prática. O nome do curso é Como Trabalhar de Casa com a Internet.




